O primeiro anúncio 100% feito por IA passou no horário nobre da TV americana — e ninguém percebeu que era inteligência artificial.
Era o intervalo do terceiro jogo das finais da NBA. O comercial mostrava um fazendeiro flutuando numa piscina cheia de ovos, uma mulher sendo entrevistada no meio de um furacão, um executivo de terno saltando de paraquedas pela janela do escritório. Cenas que pareciam saídas de um filme do Michael Bay, produzidas em dias, por uma fração do custo tradicional. A CNBC confirmou: esse foi o primeiro anúncio completamente gerado por IA a ser veiculado na televisão americana — todas as cenas, atores e ambientes criados com inteligência artificial, incluindo as vozes dos personagens.
Você vai ver esse tipo de anúncio dominando o mercado brasileiro. A questão não é se, é quando. E quem começar a entender essa linguagem agora vai ter uma vantagem competitiva real.
O comercial que a Disney deixou passar
Em julho, analisei um comercial no meu Instagram que chamou muita atenção lá fora. Era da Kalshi, uma casa de apostas americana onde as pessoas apostam dinheiro sobre eventos reais: “o preço dos ovos vai subir esse mês?”, “quantos furacões vão acontecer esse ano?”.
A proposta de valor da Kalshi é apostar sobre o mundo real. E os produtores do comercial entenderam isso de um jeito genial.
Em vez de explicar o produto com uma narração chata, eles criaram cenas diretamente ligadas ao que você pode apostar na plataforma. O fazendeiro na piscina de ovos? Aposta sobre o preço dos ovos. A mulher sendo entrevistada no meio de um furacão? Aposta sobre quantos furacões vão acontecer no ano. Cada cena é a personificação literal de uma aposta. Isso não é acidente criativo. É direção precisa — a ferramenta de IA executou uma ideia humana muito bem construída.
Por que esse tipo de vídeo funciona
O que torna esses anúncios irresistíveis não é a tecnologia em si. É a emoção comprimida em poucos segundos.
Você vê seis cenas em dez segundos. Cada uma com um hook visual diferente. Um senhor com a bandeira dos EUA passando por uma quadra de basquete. Uma mulher atraente no verão com microfone. Um homem em cima de um jacaré numa piscina inflável. Um cara de terno correndo em direção à janela.
O que essas cenas têm em comum? São esquisitas sem causar repulsa — você pensa “o que está acontecendo?” mas sente curiosidade, não nojo. Carregam emoção visual sem precisar de áudio. E seriam impossíveis ou caríssimas de filmar de verdade: uma piscina de ovos, uma cena de furacão com entrevistador, explosões, jacarés — isso custaria uma fortuna em produção tradicional. Com IA, você produz essas cenas individualmente, combina num editor, e tem um comercial de trinta segundos que parece um blockbuster.
O segundo anúncio: Lindy e o escritório caótico
Outro vídeo que analisei é da Lindy, uma ferramenta de automação. A proposta de valor é que automatizaram todas as tarefas dos funcionários — e agora esses funcionários estão com muito tempo livre.
E aí começa o caos criativo.
Os funcionários fazem coisas absolutamente sem noção: pulam de paraquedas pelo escritório, tomam banho de banheira com roupa, tocam em uma banda dentro da empresa, têm um robô servindo cerveja. Cada cena reforça a mesma ideia — a Lindy libertou as pessoas do trabalho chato.
O que impressiona tecnicamente é que as cenas foram criadas individualmente com IA, mas estão todas no mesmo ambiente: o mesmo escritório. Isso cria coerência visual enquanto mantém o dinamismo dos cortes rápidos. Não é fácil fazer isso de forma orgânica, e quando funciona, parece mágica.
Isso não é novo — só ficou mais acessível
Antes de achar que é uma revolução total, preciso contextualizar: esse estilo de anúncio já existia antes da IA.
Os Harmon Brothers são uma agência americana que ficou famosa exatamente por esse formato — vídeos caóticos, engraçados, com cenas graficamente ousadas, transmitindo uma mensagem de produto. Fizeram anúncios para o ClickFunnels, para o Squatty Potty, entre outros. O Old Spice tem uma pegada similar: cenas non-sense, cortes rápidos, humor absurdo. Você sabe o que está sendo vendido, mas chega lá depois de um passeio visual completamente imprevisível.
O que mudou com a IA não é a linguagem criativa. É o custo de produção.
Produção tradicional com locação, figurino, atores, efeitos especiais e seguro facilmente passa de R$ 500 mil por comercial. Com IA, um time pequeno produz em dias. Um case brasileiro foi feito em dois dias por R$ 2.000 e bateu 20 milhões de impressões nas redes sociais.
O que realmente é difícil nesse tipo de produção
Quero ser honesto: eu ainda não fiz um comercial nesse formato. Sei o caminho, mas não vou ensinar algo que ainda não executei. Quando eu fizer, vai estar disponível na minha comunidade em conteudo.org.
O ponto que importa destacar: a ferramenta de IA é a parte fácil.
Você aprende a usar o Veo do Google, o Sora, o Kling, qualquer gerador de vídeo — é uma curva de aprendizado, mas não é o gargalo. O gargalo é a criatividade humana.
Para criar o comercial da Kalshi, alguém precisou entender profundamente o produto e sua proposta de valor, ter a ideia de personificar cada aposta como uma cena caótica, roteirizar cada cena de forma que ela funcione visualmente em dois segundos, garantir que o conjunto de cenas conte uma história coerente, e saber quando o vídeo está pronto. Nada disso é a IA fazendo. É direção criativa humana. A ferramenta executa. Quem dirige é você.
O padrão visual que você precisa entender
Se você quer começar a estudar esse formato, preste atenção nos elementos que aparecem nos melhores exemplos.
Cortes rápidos. Cada cena dura de um a três segundos. Isso mantém o ritmo e força o cérebro a continuar assistindo para entender o que está acontecendo.
Cenas com emoção imediata. Beleza, perigo, absurdo, humor — qualquer coisa que gere uma resposta emocional antes que o cérebro processe racionalmente. O primeiro segundo decide se a pessoa continua.
Coerência de mensagem, não de cena. As cenas podem ser completamente diferentes visualmente, mas todas precisam apontar para a mesma ideia central. No caso da Kalshi, todas as cenas são situações reais sobre as quais você pode apostar.
Proposta de valor no final ou integrada. O produto aparece quase sempre depois que você já está engajado. A mensagem comercial entra quando o espectador já foi capturado pela narrativa visual.
Geração individual de cenas. Cenas de IA funcionam melhor quando geradas separadamente e depois editadas juntas. Tentar gerar um vídeo longo e coerente de uma vez ainda falha muito. O segredo é produzir cenas curtas, selecionar as melhores, e montar no editor.
Por que isso vai chegar no Brasil
Essa tendência ainda está no começo mesmo nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, ainda não vi marcas fazendo isso de forma consistente. Mas é só uma questão de tempo.
Os ingredientes já estão disponíveis: ferramentas de geração de vídeo ficaram acessíveis e baratas, criadores e agências estão começando a experimentar, e cases provam o ROI. Vinte milhões de impressões por R$ 2.000 é impossível ignorar.
Quem começar a desenvolver essa competência agora — entender a linguagem, testar formatos, criar esse tipo de anúncio para seus próprios produtos ou para clientes — vai ter uma vantagem enorme quando o mercado brasileiro começar a demandar isso em escala.
O próximo passo
Se você quer se preparar para essa tendência, comece pelos fundamentos antes de partir para a ferramenta.
Assista os vídeos dos Harmon Brothers. Estude como o Old Spice constrói suas cenas. Analise o comercial da Kalshi de frame a frame. Entenda por que cada cena foi escolhida, o que ela comunica emocionalmente, como ela se conecta com o produto.
A criatividade não é um talento que você tem ou não tem. É uma habilidade que você desenvolve estudando o que funciona e tentando reproduzir a lógica. A IA vai gerar as imagens. Mas a direção criativa — o que vai gerar, por quê, e como vai montar — isso ainda é 100% humano. E vai continuar sendo por muito tempo.
Perguntas frequentes
Qualquer empresa pode criar anúncios em vídeo com IA?
Sim. As ferramentas de geração de vídeo com IA estão acessíveis e relativamente baratas. O case brasileiro que mencionamos custou R$ 2.000 e gerou 20 milhões de impressões. O gargalo não é orçamento, é direção criativa — saber o que gerar e por quê.
Quais ferramentas de IA são usadas para criar esses vídeos?
As principais são Veo (Google), Sora (OpenAI) e Kling. Cada uma tem pontos fortes diferentes. O mais importante não é escolher a melhor ferramenta, mas entender como gerar cenas curtas de forma isolada e montar no editor.
Por que as cenas são geradas separadamente e não num vídeo longo?
Porque a geração de vídeo longo e coerente ainda falha muito. O método que funciona é gerar cenas de 2 a 5 segundos individualmente, selecionar as melhores e montar no editor. Assim você tem controle criativo total sobre cada peça.
Esse estilo de anúncio funciona para qualquer produto?
Funciona melhor quando você consegue personificar visualmente a proposta de valor do produto. A Kalshi fez isso com maestria: cada aposta virou uma cena caótica. Se você conseguir criar essa conexão entre cena e mensagem, funciona.
A IA substitui o diretor criativo nesses anúncios?
Não. A IA executa. A direção criativa — entender o produto, criar a metáfora visual, roteirizar cada cena, garantir coerência de mensagem — é 100% humana. Quem dominar essa combinação vai ter vantagem real no mercado.
O mercado brasileiro já está usando esse formato?
Ainda pouco. Existe um case de marca brasileira que usou IA para criar um vídeo que bateu 20 milhões de impressões por R$ 2.000. Mas é exceção, não regra. O mercado ainda está aprendendo a linguagem — o que é uma oportunidade para quem começar agora.
Como aprender a criar esse tipo de anúncio?
Comece pelos fundamentos antes da ferramenta. Estude os Harmon Brothers, o Old Spice, analise o comercial da Kalshi cena a cena. Entenda a lógica emocional de cada escolha visual. Só depois pegue a ferramenta de IA e tente reproduzir essa lógica.
Quanto custa produzir um anúncio com IA comparado ao método tradicional?
Produção tradicional com locação, atores e efeitos especiais pode custar de R$ 500 mil a R$ 1 milhão por comercial. Com IA, um time pequeno consegue produzir em dias por uma fração desse custo. O case brasileiro foi feito em dois dias por R$ 2.000.
