Eu publiquei um carrossel no Instagram que bateu quase 1 milhão de views. Era sobre a história do Luis Enrique, técnico do PSG, que perdeu a filha pequena anos atrás.
Nenhuma inteligência artificial me recomendaria fazer esse post.
Eu falo para marqueteiros, criadores de conteúdo, empreendedores digitais. E aí resolvo contar a história de um técnico de futebol? Isso exige articular variáveis e fazer conexões que a IA simplesmente não faz — porque ela não tem o contexto todo, não consegue filtrar o que é relevante e não tem o feeling de que aquilo vai funcionar.
E é exatamente esse feeling que eu quero desenvolver com você aqui.
O único diferencial que a IA não replica
Com o avanço cada vez mais surpreendente da inteligência artificial — para escrever, produzir design, programar — a pergunta que fica é: o que sobra pra gente?
A IA talvez não escreva ainda como um escritor excepcional, talvez não produza uma peça como um designer genial. Mas é questão de tempo. Poucos anos.
Então qual é o nosso diferencial competitivo? O que nos faz profissionais que ainda têm valor de mercado?
Na minha opinião, é o bom gosto. Esse senso de curadoria. Esse feeling para selecionar o que deve ser publicado e o que não deve.
A IA não consegue abocanhar todo o contexto da nossa vida, do mercado, das relações humanas. Ela não tem essa leitura de mundo. E eu acho improvável que isso aconteça nos próximos anos.
Por que o carrossel do Luis Enrique funcionou
Eu sabia que a final da Champions League estava chegando. Sabia que o Luis Enrique era protagonista como técnico de um dos finalistas. Encontrei essa história por acaso, reembalei com a minha linguagem e apresentei pro meu público.
O ponto é: nenhum chatbot, nenhuma LLM chegaria nessa conclusão. Pegar a história de um técnico de futebol, conectar com lições de marketing de conteúdo e ainda fazer um CTA para o meu produto no final — isso exige um nível de articulação que a IA simplesmente não tem.
E é aí que mora o diferencial. Tão importante quanto escolher o que publicar é escolher o que não publicar. O que você vai abandonar, deixar de lado.
Hoje em dia se cria conteúdo muito fácil. Cada vez surgem mais técnicas, metodologias, bots para produzir conteúdo raso e superficial em minutos. Cabe a nós, criadores, ter o bom gosto de selecionar o que merece ir ao ar.
Como desenvolver bom gosto
De uma forma muito simples: consuma coisa boa fora da sua área de atuação.
- Leia literatura — busque os clássicos
- Assista bons filmes — tem dezenas de listas curadas por aí
- Ouça boa música
- Dê moral para suas curiosidades aleatórias
Eu, por exemplo, sempre fui curioso sobre coisas completamente aleatórias. Como funciona um set de filmagem de Hollywood? Quantas pessoas trabalham ali? Isso não tem nada a ver com marketing, mas enriquece meu imaginário e minha capacidade de fazer conexões.
Eu falo de marketing, de conteúdo, de vendas. Mas honestamente, pelo menos metade do meu tempo não é consumindo conteúdo sobre essas coisas. Depois de mais de 10 anos, o retorno marginal diminui. A riqueza vem de fora.
Esse processo é para uma vida inteira. Não existe um plano de estudo “desenvolva bom gosto em 7 dias”. O que eu posso te sugerir, por experiência prática, é: adquira cultura. Comece pelos clássicos. Se achar chato, assista primeiro um vídeo no YouTube de alguém explicando aquele livro. Quando for ler, já vai ter uma visão facilitada.
As 3 camadas da curadoria de conteúdo
Uma vez que bom gosto e curadoria são um diferencial competitivo real, como aplicar isso na prática? Eu vejo três camadas:
1. O aspecto trending (diário)
É o que eu explorei com o post do Luis Enrique. Tinha um evento se aproximando (a final da Champions League), o público já estava inclinado a consumir aquele assunto.
A lógica é simples: participe de discussões, não tente criar discussões. Iniciar discussões é muito mais difícil — é próprio de formadores de opinião com audiência grande. Se você não está nesse nível ainda, aproveite o que já está acontecendo.
Toda semana tem uma polêmica, um evento, uma notícia quente. Você pega esse contexto, dá seus 20 centavos com a sua perspectiva e a chance de acertar na curadoria cresce automaticamente.
2. O aspecto transformacional
Se você está num processo de aquecimento para um lançamento, a curadoria muda. Aqui você seleciona temas de acordo com a intimidade de cada tema com o que você vende.
O mais perto possível da sua proposta de valor. Porque você quer comprovar sua competência. Não é hora de dispersar a comunicação — é hora de concentrar num único ponto.
Por exemplo: se eu fosse lançar minha comunidade, talvez não usasse a história do Luis Enrique. Encaixa no meu perfil, mas não tem relação tão íntima com a proposta de valor do produto. Num período de lançamento de 15 a 30 dias, cada post precisa estar cirurgicamente alinhado.
3. O aspecto perene (duradouro)
Essa é a camada que eleva tudo. É a mensagem que não tem prazo de validade — que faz sentido daqui 5, 10, 50 anos.
No carrossel do Luis Enrique, eu apresentei algo temporal (a final da Champions), mas o valor que busquei trazer — a lição, a moral da história — é atemporal.
Ficar só no conteúdo diário, nas notícias quentes, é desgastante e tem pouco valor agregado no longo prazo. Quando você traz esse olhar mais duradouro, falando das coisas que duram, sua curadoria fica mais elevada. Seu bom gosto aflora com mais espaço.
O caminho é combinar as três camadas
A curadoria mais poderosa combina trending + transformação + perenidade num mesmo conteúdo:
- Gancho temporal para capturar atenção (o que está acontecendo agora)
- Conexão transformacional com o que você ensina e vende
- Lição perene que sobrevive ao momento
Isso é o que a IA não faz. Ela não tem o contexto, o timing e o feeling para articular essas três camadas simultaneamente.
E esse é o único diferencial que ninguém vai automatizar tão cedo. Desenvolva seu bom gosto. Consuma cultura. Dê moral para suas curiosidades. E aplique isso na seleção implacável do que merece — e do que não merece — ser publicado.
Perguntas frequentes
O que é bom gosto na criação de conteúdo?
Bom gosto é a capacidade de selecionar os temas certos, fazer conexões inesperadas e saber o que publicar (e o que deixar de fora). É um senso de curadoria que vai além de seguir fórmulas — envolve repertório cultural, timing e sensibilidade para o que o público precisa ouvir.
A IA vai substituir criadores de conteúdo?
A IA já produz textos, designs e código com competência crescente. Mas ela ainda não consegue replicar o bom gosto — aquele feeling para escolher temas, fazer conexões entre áreas diferentes e decidir o que merece ser publicado. Esse é o diferencial que protege criadores humanos.
Como desenvolver bom gosto para conteúdo?
Consumindo cultura fora da sua área de atuação. Leia literatura clássica, assista bons filmes, ouça boa música. Alimente curiosidades aleatórias. Quanto mais repertório você acumula, mais conexões originais consegue fazer no seu conteúdo.
O que é curadoria de conteúdo na prática?
É o processo de selecionar, filtrar e apresentar temas de forma estratégica. Envolve três camadas: aproveitar trending topics do momento, criar conteúdo transformacional alinhado ao que você vende, e trazer mensagens perenes que fazem sentido por anos.
Como escolher temas de conteúdo que viralizam?
Uma boa estratégia é participar de discussões que já estão acontecendo (trending), em vez de tentar criar discussões do zero. Conecte o assunto do momento com a sua área de expertise e traga uma lição atemporal. Foi assim que um carrossel sobre futebol gerou quase 1 milhão de views num perfil de marketing.
Quanto tempo devo investir estudando coisas fora da minha área?
Pelo menos metade do seu tempo de estudo e consumo de conteúdo deveria ser fora da sua área de atuação. Depois de anos no mesmo nicho, o retorno marginal de mais conteúdo técnico diminui. A riqueza vem das conexões entre áreas diferentes.
Qual a diferença entre conteúdo trending e conteúdo perene?
Conteúdo trending aproveita o momento — uma polêmica, um evento, uma notícia. Conteúdo perene traz lições que fazem sentido por anos. O ideal é combinar os dois: usar o gancho temporal para atrair atenção e entregar uma mensagem duradoura.
Como a curadoria ajuda a vender mais?
Quando você seleciona temas com intimidade direta com o que vende, comprova sua competência naquele assunto. Nos 15-30 dias antes de um lançamento, concentre sua curadoria em temas transformacionais — aqueles que mostram que você domina exatamente o problema que seu produto resolve.
